Hirtussi
O prédio de apartamentos já estava alto: uma torre em um bairro de casinhas, a primeira de muitas sombras. Em uma das sacadas do sétimo andar do prédio sem reboque, o vento agitava uns trapos no parapeito: metade das roupas de Hirtussi, um dos tantos serventes de pedreiro que trabalhavam na obra e que tinha esse nome porque a sua mãe leu alguma coisa de maneira errada.
Os pedreiros, mestres de obra, eram quase celebridades: conhecidíssimos e donos de picapes e ray-bans bem falsificados. Vinham de outros bairros para trabalhar na obra. Um deles, Kelyon, morava mesmo em um condomínio de bacanas. Os serventes eram sazonais e, por isso, paravam pouco. Havia ex-bêbados, vagabundos contumazes e gente sem estudo atrás de trocados em um dos poucos lugares que ainda os aceitavam. Só faziam algo se alguém mandasse, o que era bom, pois a maioria era incapaz de seguir ordens complexas. Eles dormiam no alojamento da obra, um barracão de madeira, de dois andares, que sumiria quando o prédio ficasse pronto.
Hirtussi, porém, era uma espécie de nódulo entre dois tecidos: não se dava com os mestres, que via como lacaios do patrão, e desprezava os seus iguais, pois os julgava massa de manobra desesperada. Hirtussi tinha cursado um semestre de um curso de Humanas e, segundo ele mesmo, aprendeu o suficiente: quando bebia, se classificava como lumpemproletariado. A culpa de tudo – da sua pobreza, da sua indigência, da alienação dos colegas – era do capitalismo. O servente nunca conheceu o dono da construtora e deduziu que o homem, engenheiro mencionado pelos mestres com receio e respeito, tinha medo dele, Hirtussi. Por isso, o servente se mantinha o mais relaxado que podia, esperando o confronto. Pelo relaxo (inclusive com higiene) e pela chatice, os outros operários expulsaram Hirtussi do alojamento comum, o que o forçou a se exilar no sétimo andar, de onde cuspia sobre o telhado do barracão: ele olhava a cusparada cair e ouvia o barulho do choque quando ela atingia a chapa de zinco.
O chefe direto de Hirtussi era Kelyon, o mestre mais célebre; além da própria equipe, era ele quem respondia diretamente ao engenheiro responsável pela obra. Kelyon não mandava o servente embora porque o considerava um inútil e, fora dali, era indigência certa. O mestre era homem de igreja e considerava que era função sua fazer o bem: se ele pudesse adiar por um tempo a ida de Hirtussi (que ele chamava de Wirso) para a sarjeta, era o seu dever. Não agia exatamente pelo bem, mas contabilizava isso no livro-caixa sua salvação. E, depois, havia tanta gente na obra que um a mais passava despercebido.
A única função do servente era manter limpa uma oficina pouco usada. Como era serviço simples, Hirtussi fazia sem grandes esforços e passava o resto do dia pensando, sentado em um canto, em como destruiria o mundo assim que pudesse. À noite, ele subia de escada até o sétimo andar, onde havia um colchão sujo e uma caixa com roupas. Quando tomava banho, uma vez por semana, o fazia no vestiário do alojamento, aos sábados, quando a maioria dos serventes saía para beber e se divertir nos bares do bairro ou no inferninho de segunda categoria, com umas mulheres feias, que estava a umas seis ou sete quadras voltando para o centro. Hirtussi não acompanhava os colegas; e ele levou a vida no sétimo andar por um bom tempo. No começo, o vento entrava pelos buracos sem portas nem janelas. O inverno passado lá foi de provações.
No final, quando os apartamentos estavam na fase de acabamento, Hirtussi precisou se mudar: passou a dormir na oficina. A obra acabou e ele voltou para a casa da mãe, na mesma cidade, mas em outro bairro, bem pobre.
Quando Kelyon precisou de uma equipe para limpar os apartamentos, se lembrou do antigo subordinado. Como estava precisando de dinheiro, Hirtussi aceitou a empreitada. Com vassoura, e pano nas mãos, cada funcionário ficou responsável por meio andar. Coube ao antigo servente metade do sétimo andar, justamente onde estava o apartamento em que tinha vivido durante meses. Agora, havia piso e janelas; estava pintado; com tinta ordinária, mas pintado. De má vontade, o rapaz começou a varrer a poeira vermelha e cinza que empesteava os cômodos. A sua cabeça fervilhava pelas injustiças, pelas ofensas que a mãe lhe dirigia todos os dias. “A culpa é do sistema”: e ele nunca viu o dono da construtora, aquele cagão. Todo movimento seu produzia eco, inclusive um peido alto, seguido de uma risadinha involuntária, sinal claro de que em breve seria necessária uma visita ao banheiro. Hirtussi ia resolver o problema ali mesmo.
Foi ao banheiro da suíte, minúsculo como todo o resto do apartamento, de dimensões ridículas. Pintado de branco e vazio, dava a falsa impressão de amplidão. Havia móveis que não passariam pela porta da cozinha. O servente despejou no banheiro o que lhe ia nas tripas, que era um pouco pior que a média por conta da má alimentação e das verminoses. O cheiro, se fosse visível, seria visto escapando da janela como rolos de fumaça.
— Este apartamento, construído com o meu esforço, é para um rico. Pois ele também vai ficar com esse presente.
Hirtussi não deu descarga. Como o seu trabalho ali estava pronto, abaixou a tampa, não sem deixar junto a folha de jornal com que tinha se limpado. A massa marinou ali, fechada, por uma semana. Quis o destino que fosse uma semana quente.
Os futuros moradores se juntaram no estacionamento. A construtora trouxe uma banda para a entrega das chaves, além de show de luzes e um mestre de cerimônias que tinha a língua ligeiramente presa, o que até lhe dava algum charme, pois ninguém percebia. Havia apenas a emoção das pessoas em finalmente tomar posse de algo que era seu. Kethleen, ex-manicure e agora atendente de telemarketing, e o marido estavam na cerimônia. Não viam a hora da entrega.
A banda tocou uns sertanejos e, finalmente, o MC começou a chamar os nomes. A cada chamado, o nomeado subia, pegava a chave e tirava uma foto com o MC, tudo recheado de palmas. O MC se sentia melancólico: antes esses eventos tinham fogos de artifício: sem eles, o mise en scène ficava comprometido. Depois de uns quarenta minutos, todos tinham as chaves e queriam ver os seus apartamentos. Os elevadores ficaram impraticáveis. Kethleen, ansiosa, subiu pela escada de incêndio, e arrastou consigo o marido, que estava um pouco acima do peso e precisava parar em cada patamar de andar para respirar.
Abriram a porta do sétimo andar. O marido parou para tomar ar enquanto ria meio bobo e pálido para a esposa; o suor lhe escorria pelo rosto. O apartamento era o 71. Kethleen abriu a porta: tudo branco, tudo limpo. O marido, um pouco menos descomposto, entrou na sequência. A mulher passava com carinho a mão pelas esquadrias de alumínio e abriu a porta da sacadinha.
— Aqui vai ficar o vaso de renda-portuguesa que era da minha vó.
A escada apertou a bexiga do marido, que procurou o banheiro. Assim que o homem abriu a tampa do vaso, quase caiu com o engulho. Kethleen ouviu o som da ânsia de vômito do marido.
— O que foi, queri…
Não teve tempo de terminar: o odor violento alcançou as suas narinas, na sala. Com a mão no rosto, Kethleen chegou ao banheiro. O marido estava apoiado na parede, com a mão cobrindo a boca e o nariz.
— Alguém… alguém cagou aqui faz uns dias… — e a ânsia voltou.
Kethleen nem olhou: apertou o botão da descarga com o pé.
— Corre: abre todas as janelas!
O marido correu e as abriu. Mesmo com o dejeto levado pela água e com a corrente de vento, o cheiro demorou uns quinze minutos para se dissipar totalmente. E a cerâmica do vaso ficou toda incrustada.
— E eu que quase pedi uma pizza pra gente comer aqui, no primeiro dia…
Kethleen pensou que nunca mais veria esse tipo de horror ao deixar o bairro miserável onde morava, na mesma rua de Hirtussi. O dono da construtora nunca pisou no prédio que construiu e nem soube da obra de Hirtussi, o seu ex-empregado.





Nojento, mas muito bom! Hahaha